sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Ideologia Queer: 
Por que tanta aversão à norma?

                        Ideologia Queer é bem diferente de movimento LGBT e quejandos. Trata-se de uma nova abordagem da ideologia de gênero, mais amplificada, que busca desconstruir as normas e as convenções sociais que nos constituem como sujeitos. Preconiza uma aversão a todo tipo de normatividade, como se isso fosse possível sem severo comprometimento da vida individual e coletiva, como se a vida fosse pura arte ou delírio.
                        A ideologia Queer ignora o método científico essencialmente normativo e objetivo. Aferra-se em construções retóricas sofisticadas, prenhe de recursos neurolinguísticos e de dialética erística. Seu movimento é em direção a um constante devir. Toda proposição ou conclusão deve ser admitida como aberta, provisória e transitória. Filosoficamente, deita raízes em Foucault e Derrida, mas a ordem de ideias, de feição pós-estruturalista, se abebera, sobretudo, nas teorias psicanalíticas, feministas e marxistas, o que revela seu proeminente matiz político-ideológico.
                        Apresenta-se como nova forma de construção de identidades, livre de interdições e reminiscências paternas, a corresponder e retroalimentar um indivíduo desorientado e ansioso por novidades. Tem conseguido, facilmente, o apoio dos meios de comunicação e de expressiva parcela dos educadores, formadores de opinião, artistas e do meio acadêmico. Insurge-se, tenaz intransigentemente, contra o conservadorismo, a moral posta e a tradição cultural. Aspira ao posto de politicamente correto, pegando carona nos legítimos movimentos sociais das minorias.
                        A teoria Queer, recorrentemente, lança mão, a seu favor, das ideias de violência ética, opressão e abjeção, mas age exatamente ao contrário em relação ao religioso, ao cultural, ao pensamento hegemônico, ao normativo e ao heterossexismo. Isso, obviamente, contraria a ideia de liberdade oceânica, livre de qualquer interdito, que é sua pedra de toque, o que nos permite concluir que a desejável desconstrução não é tão ampla quanto parece, mas possui um alvo específico.
                        Portanto, não é que seja proibido proibir, deseja-se proibir apenas o proibido oriundo de um ponto cego provedor do simbólico (Pai/Deus), que faz surgir e mantém o indivíduo religioso, gregário e moral, um ser de cultura. Pretende-se não propriamente defender a liberdade sexual, a questão de gênero é apenas um veículo; deseja-se, na verdade, primacialmente, a desconstrução e o sepultamento de quaisquer vestígios da milenar forma de construção de identidades.
                        Pois bem, na raiz dessa conflagração há algo muito mais grave do que a sexualidade ou a moralidade. Há anos venho sustentando que a real motivação é o desmonte do atual psiquismo humano patercentrado, com Deus ao fundo.
                        Tanto Freud quanto Lacan acentuam que o simbólico paterno possibilita a vida civilizada, a constituição do sujeito e a inserção do indivíduo no discurso da linguagem. E não tiram isso de uma cartola ideológica de predominância retórica, dialética, ocupada apenas com a dinâmica do poder e descomprometida com a comprovação científica, isto é, que se afere objetiva, racional e experimentalmente.
                        Não é preciso um estudo aprofundado das ideias de Foucault, Derrida, Deleuze e Guattari para bem compreendermos o momento atual e o rumo da ideologia Queer, basta um conhecimento geral das suas ideias.
                        A economia do desejo opera e bem se harmoniza com a interdição. No conjunto da obra, é mais do que “um mal necessário”. Os instintos precisam ser obtemperados, sob pena de esquizofrenia, perversão, adicções, despertencimento, etc.
                        Liberdade sem limite é própria dos vícios, destrutiva, dirigida para a morte.
                        Voltando ao pomo da questão, muito resumidamente, o desmonte psíquico postulado pela ideologia de gênero e, notadamente, pela teoria Queer, de Sedgwick e Butler, perfila-se a esquizoanálise deleuziana.
                        Em suma, o atual psiquismo humano, milenarmente ancorado na metáfora paterna - agora, do pai humilhado -, ainda se encontra montado em prol da religiosidade e da moralidade que ensejam a vida civilizada.
                        O equipamento “patercentrado”, que nos permite engajados no discurso da linguagem, também nos capacita a intuirmos Deus. Não por coincidência, a fala e a espiritualidade são singularidades humanas.
                        Curiosamente, na revelação bíblica dos cristãos, Deus, que, ontologicamente, não é Pai, mas Deus apenas, a partir de Cristo, se autonomeou “Pai”, a fim de se colocar no lugar de ente simbolizado, metaforizado, o que faz lembrar o pai primevo do relato totêmico, o qual, morto, se tornou mais poderoso do que fora em vida.   
                        O Pai simbólico sustenta os interditos, as diferenças (certo e errado, regra e exceção, proibido e permitido, normal e anormal, igual e diferente, individual e coletivo, público e privado, macho e fêmea, jovem e idoso, etc), as autoridades, os valores éticos e a moral. Há uma Lei simbólica, uma normatividade difusa, sustentada pela ideia de Deus, pela intuição de Deus, em todas essas categorizações.
                        Deus comparece no normativo (simbólico da Lei), ainda que despercebidamente. Por isso se diz, vulgarmente, que “se Deus está morto, tudo é permitido”.
                        Onde não vige a força da Lei (simbólica, da mediação significante) vige a lei da Força (real, sem mediação significante). Estamos entre a Toga e o fuzil. Entre o imanente e o transcendente.
                        O descarte da metáfora paterna, epicentro do psiquismo humano e da vida social, não apenas desestrutura a atual montagem do psiquismo humano, desequilibrando a economia das pulsões – o que não é pouco -, enseja, também, uma série de novos transtornos e sofrimentos (ou novos contornos a velhos sintomas), tais como, narcisismo onipotente, compulsões (adicções), depressões, suicídios, crises de pertencimento e identidade, TOD (Transtorno Opositor Desafiador), transtorno de personalidade boderline, etc.
                        Ao esvaziar-se a metáfora paterna, além do desmonte da milenar estruturação psíquica (a família patriarcal já foi desmontada), operar-se-á a apostasia e a anomia. Deus deixará de ser intuído, e nós, individualmente, assumiremos seu lugar.
                        Nada menos que isso, disse Jesus: “por se multiplicar a anomian o amor de muitos esfriará” (Mt. 24:12). Não haverá afeto nem amor com a supressão dos interditos. Não há amor sem temor (que chamaria de “medo prezado”).
                        Somos constituídos pela linguagem, que é essencialmente normativa e arbitrária, e, também, por infindáveis normas indisponíveis, próprias da física, da química e da biologia, que nos caracterizam e limitam, visceral e inapelavelmente. É inegável que há um aspecto cultural na sexualidade e na moralidade humana, isso, porém, não nos autoriza banir a normatividade pela raiz, como se fosse um mal em si.
                        Desse modo, como não poderia deixar de ser, funcionamos melhor sob a normatividade do que debaixo de ampla liberdade artística. Esta, aplicada à vida como modo de existir, tem destino certo: apostasia, desamor, desagregação, vícios, destruição e morte.
                        Não haverá vácuo de poder. O lugar do pai simbólico (Deus/Lei/Pai) será assumido pelos irmãos onipotentes (iguais indistintos, pois não mais haverá norma). Receio-me disso, que o patriarcado vitoriano esteja sendo substituído por seu extremo oposto, o imanentismo instintual desagregador. Será isso assim? Será isso possível, factível? De uma coisa, porém, estejamos certos, é isso o que deseja a ideologia Queer, com seu imanentismo do carpe diem, completamente desinteressado das consequências.
                        O fim da metáfora paterna, ou seu enfraquecimento a mais não poder, atingiria Deus em cheio (ou nossa capacidade de percepção dEle). E, não é demais lembrar, Ele escolheu ser chamado de Pai.
                        Deus não existir dá no mesmo que, existindo, não sermos capazes de percebê-lo, de intuí-lo.
                        Enfim, não era genuinamente ateu quem era ordeiro e moral, quero dizer, normativo. A normatividade, alvo de abjeção da teoria Queer, é uma difusão da metáfora paterna (Deus nisso comparece, sub-repticiamente).
                        Se o pêndulo não retornar, experimentaremos, em breve, o ateísmo prático, com o ateu autêntico, anômico, apóstata, amoral, livre das reminiscências, sombras e indícios de Deus (simbólico), psiquicamente descentrado, estilhaçado (esquizo).

Autoria de Dr Elias Pedro Sader Neto 
                   Juiz de Direito do Estado do Rio de Janeiro